Sábado, Agosto 20, 2011

Esboço noturno

FOTO BY Ale Rozz - Sao Thome das Letras
















O pouco que sonho são fragmentos, imagens que guardo.
Me pego em mentiras, devaneios, me guio pela inexistência de qualquer verdade.
Desprezo a realidade.
Não me interessa, nem me excita.
O irreal é mais honesto e não se arrasta até a morte, pensamento sem vida.
Noite sim, busco você. O efêmero encontro.
Noite não, na perfídia da insônia me habita em pensamento.
Fôra um sonho. É acordado que vivo o pesadelo.

Quinta-feira, Maio 13, 2010

Espelho mudo

Pouco fala ou quase nada
Os olhos fundos, tão profundos
Bem lá no fundo uma fração
Inanição e falta de quase tudo
Nem imundo, nem sisudo

Alterado na raiz do DNA
Cérebro incessante, cerebelo
Errante, errado, irritante e irritado
Machucado e fadado ao cúmulo do vazio
Moeda sem cara, sem lado, sem níquel

Massivo e massacrante
Corta a pele em tiras, sabor mentiras
Porque aqui ninguém me pôs, ninguém me tira
E pra quem pouco ou nada sabia
Esqueci até mesmo como era quando me feria

E durante três manhãs ao dia
Aquele mudo e vazio que se reflete
Naquele mudo e vazio que me remete
No muro do vazio que se repete
No mundo tão lascivo que me repele

Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

A menina do outro lado




















Existe uma menina que vive do outro lado
Que faz estrelas estáticas piscarem
Faz o tempo ficar mais curto
Faz a noite chegar devagar

Existe nessa menina uma beleza
Que se reflete nos seus olhos
Que sai por seus lábios
E somente nela isso faz sentido

Existe no seu coração algo que se liga no meu
Se tentasse explicar
De pensar estaria errando
Eu só deixo que seja assim

Existe sempre algo para lembrar quando se acorda
Algo para ficar pensando quando se vai dormir
Um sorriso no canto da boca
A lembrança que vai comigo para qualquer canto

Existe no seu rosto as linhas de um desenho
Como pintura e aquarela
Exaustivamente recriada até a perfeição
E incansavelmente amada por mim

Domingo, Novembro 04, 2007

Sono



Dormir feito criança
Eu nem me lembro mais
E quando eu era nem sequer me dava conta
De como aquele sono revigorava


Dormir sem sentir falta
De algo que lhe foi tirado, estirpado
Arrancado a força feito um bandido numa madrugada
Saudade do medo do escuro


Dormia inocente
Com o medo que vencia com aquela luz verde
Refletida na parede caiada de azul
Das sombras que formava a luminária

Medo que se ia com a luz do dia
Pesadelos que eu esquecia
Quando a claridade vinha
Só podia sentir a vida

Hoje me pego com medo de estar acordado
E quando percebo, preciso sair daqui
E numa garrafa qualquer
Com os lábios adormecidos e a mente inerte ao ridículo

E com o suor da garrafa na mesa eu percebo seu nome
E me lembro de te odiar cada vez mais
Por desviar minha mente do meu caminho
E o meu coração do esquecimento tardio

Segunda-feira, Abril 16, 2007

Não mudo



Eu lhe dou o que mais cobiço
E o que ganho nisso?
O mesmo que ganhei até hoje
O preço é altíssimo

E vive dentro de mim
Um dia mais gritante
Outro a mordiscar as minhas artérias
Ou arranhando a minha garganta

E sai por vezes na forma de som
Outras na forma de palavras
Mas não é cessante
E fica inquieta e não se expurga

E passo a noite a querer chorar
E nem sequer uma gota ou lágrima
Só aquele amargo residente
Grande maldição escolhida e concebida

E ainda me pego tendo medo da morte
Sendo que pior é travar uma luta com a vida
Se enxergar perdendo toda vez
Levantar e preparar-se para a nova caída

Ficando sempre a mágoa do dia que passou
Que pouca alegria se reservou
E muito comemoro por nada ter acontecido
Melhor o vazio a ter algo para ser esquecido

Sexta-feira, Março 23, 2007

Lúmia



Eu sonhava com a vingança

Com os retratos cortados ao meio

Com rasuras em tudo que tem o teu nome

Me consumia no arrastar das horas


E tudo que me recordava você

Eu mandava para debaixo de um lugar imundo

Lá eu guardo e me guardo das almas iníquas

Oblívio permanente


Quando acordei do sonho da vindita

Pensei na verdade agradecer

Por ter me livrado de tão mesquinho futuro

De ter me desviado da futilidade da tua vida


E comecei a me sentir grato

Por me deixar longe da pequenez do teu caráter

Da caricatura grosseira que fez do amor

Pois assim conheci melhor a tua estirpe


Raça de gente vil

Com boca feito besta da revelação

Espada e fio

Maldição de desejo e insubordinação


Mas me sinto feliz pela sua leviandade

Salvando a alma do que sobeja

Pela paridade do estrume que você se refestela

Lunática!Lucífera!Ludibriosa!


Tomo a senda

E agora eu caminho sozinho

Sem carga morta para carregar

Ou nuvem negra a me seguir

Sexta-feira, Março 16, 2007

Preço



É do vazio que estou falando
Do egoísmo que consome vidas
Da cegueira que leva ao abismo
Do sedento que toma o veneno

Falo das coisas vividas
Da falta que podemos fazer sentir
De poder sentir falta
Da incapacidade de amar sem se ferir

É o clamor inaudível
Da insuficiência do amor
Da ausência sofrível
Da ânsia em fugir, de eliminar esta dor

É a ferida aberta
A sangria sem fim
A precipitação lacrimal
A amnésia seletiva

É da lembrança que te falo
Dos anos que se foram
Do que foi perdido por você
Da estagnação do futuro

É da tristeza que eu sinto
Da inconcebível possibilidade de se doar
Da intransigência da sua alma
Da perícia em poder magoar

É da certeza que eu temo
De não mais perder o siso por tolice
De guardar as pérolas e dispensar os porcos
De sair de um cárcere quase pérpetuo

É da impossibilidade
Da ingratidão
Da burrice enaltecida
Da superioridade em cometer erros

É da colheita que estava falando
Do preço da escolha
Da última chance lançada à mão
Da impossibilidade do perdão


Lar



Casa fechada
Armário sujo
Mobília empoeirada
Cortina encardida

E eu ali
Alívio
Aquela réstia de Sol
E caminho que se fazia pela poeira que estava no ar

Uma manhã nascia do lado de fora
A casa fechada
Aroma pútrido
Parede mofada

Úmido
Quente e abafado
E a porta fechada
Uma linha e um trinco amarrado

Cárcere concebido
Alma tola aprisionada
E o dia passando pelo campo
Ar pesado dentro da casa

Alguém bate à porta
Eu corro até o porão
Me escondo atrás do sofá
Consigo ver alguém tentando enxergar pelo vão

Em vão
Eu me camuflei
Agora estou livre novamente
Me livrei

Chega a hora do jantar
Faminto e ansioso
Mingau e água
Finjo ser gostoso

O pouco se fez muito
E quase nada posso ver ali
Embaixo do estrado aquele pó me deixa sem ar
Eu troco um olhar mas não era pra mim

Já é tarde e a claridade se fez alaranjada
Mais um dia sem ver o Sol
Mas a noite, ela será minha
A Lua será ela, sozinha

Ela chega atrasada
Pela metade e tímida
Parece esconder-se de mim na brisa
Ela abre a ferida

Esperei o dia todo e pouco dela pude ver
Fico na saudade
Amanhã eu espero o Sol ir embora
Talvez ela me ame antes de morrer


Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

A gaiola



Sou hoje o que gostaria de deixar para trás
Este caos que me cerca
Cerceando meu direito de respirar

Eu vou puxar um anjo pela asa
E vou deixá-la trancado
De fora da gaiola quero vê-lo definhar em tédio

Quero uma caneta que escreva tolices
Um carteiro que não encontre o endereço
Pois hoje quero escrever a verdade sobre mentira

E por mais que me veja sorrindo feito hiena
Sangro e sofro de uma doença comum
Nunca vou me curar da estupidez

E se me entregassem o reino de um deus
Eu o faria ruir em sete dias
Só para ter orgulho de fazê-lo com minhas mãos

Domingo, Fevereiro 11, 2007

Aviso



Deixa desta forma
Que pode haver tempestade

Deixe me correr
Andar por aí sem governo

Deixo ser estúpida
E recolhe com as mãos o esterco

Deixe-me ser assim
Entope até a garganta de vinho

Deixa ver a parede
Que cresce e não enxerga

Deixa cair a semente
Dar o que colher

Deixa viver aparente
Copular, dançar e beber

Deixa morrer de repente
Vai doer quando tudo se perder

Deixa eu sair daqui
A dor eu entrego cedo

Deixa acreditar
Existe um tempo 

Deixa esgotar
Deixa provar que é idiota

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Dor



Dor de cabeça
Não cessa
Não pára
Não me deixa

Dor sem consciência
Mata
Tortura
Queima

Dormência
Distância
Discrepância
Desesperança

Dor permanente
Cíclica
Mítica
Cínica

Doravante
Inconsciência
Inconsistência
Intermitência

Dorsalgia
Felicidade
Passividade
Saudade
 

Sábado, Janeiro 20, 2007

Extremos



Aquela luz

A vida
O choro
A palmada
O seio

A fome
O ciúme
A palavra
O passo

A queda
O céu
A professora
O amor

A paixão
O beijo
A despedida
O pesar

A cicatriz
O medo
A ferida
O sangramento

A mágoa
O ódio
A cura
O porto

A esperança
O abraço
A insensibilidade
O abandono

A chaga
O desprezo
A mesa
O escritório

A mesmice
O vão
A ignomínia
O desgosto

A mãe
O pai
A viagem
O óbito

A perda
O velório
A solidão
O esquecimento

A sepultura
O punhado
A terra
O jazigo

A falta
O pranto
A mágoa
O destempero

A idade
O velho
A máquina
O defeito

A mazela
O arrependimento
A contagem
O corpo

A morte
O murmurar
A liberdade
O claustro

Aquela escuridão

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Exílio



Toma, não quero mais isso não
Falta não me faz
Não me apetece
Me deixa em paz

Pode ir embora
E bata a porta
Me deixe a chave
Não quero você de volta

Não espere eu te chamar
Nem precisa ficar me esperando
Estava quase morto, de joelhos
Definhando

Não, nunca mais vou te ver
Nem quero guardar lembrança
Falar de ti ou coisa assim
Esqueça, mata a tua esperança

Eu vou seguir sozinho
E desta vez, pode ter certeza
Seja o que for
Não quero mais te ver

Tristeza
 

Domingo, Janeiro 07, 2007

Apatia



É o pesar dos anos

A mudança dos planos

De tantos enganos

Em dias estranhos

De sombrios encontros

De não amar uns aos outros

Por tantos desgostos

Rios e esgotos

Desenhos e esboços

A morte dos sonhos 

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

As paredes



Lá estão elas
Altas, fortes, rígidas
Ásperas e profundas em seus alicerces
Fundações no abismo do inferno

Cada dia mais altas
Tijolo por tijolo
Angústia por angústia
Medo por medo

E mais inacessíveis
Se fechando contra mim
Maldito cubo, prisão de pensamentos
Círculo fechado, vício consumado

E elas estão se fechando
Nem o céu mais posso enxergar
Me basta ficar aqui esperando
Dando um tempo até parar de respirar


 

Terça-feira, Dezembro 26, 2006

Susurrus



Esta é a penúltima vez que lhe digo adeus
E num abraço apertado
Com seus cabelos enroscados nos meus

Começo a dizer 
Sussurrando em seu ouvido
Como são feitas as coisas

Do mar a gota
Da praia a areia
Da árvore a raíz
Da casa o tijolo

Da chuva o pingo
Do livro a folha
Do ser o átomo
De mim seu beijo


Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

O vale



Definhando
Desde o primeiro dia
Vida
Incessantemente degenerativa

Olhos cansados
Pele marcada, arranhada
Batimentos arritmados
Esperança cerceada

Calcificação
Derradeiro drama
Presa fácil
Vindo do pó, filho da lama

Escuridão
Crepúsculo da partida
Chaga aberta, ferida
Desolação

Morte apontando no vale
O temor
Sempre me faltará
Não tenho pastor

 

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

Negação



Ter sono não significa dormir
Ter sede não lhe dá o direito de beber
E é assim que tudo é feito
Como a ponte que um dia vai ruir

Ter fome não lhe sacia o âmago
Ter vida não é excludente à morte
E é assim que tudo é desfeito
Como a chegada e o despertar amargo

Ter sorte não gera cura
Ter fé não transforma pessoas
E é assim que tudo é bem feito
Como a lâmpada e a mente escura

Ter amor não move o mar
Ter pena não promove o cruel
E é assim que tudo é mal feito
Como o ato de ser e não estar

 

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Passou



Uma chance, um aviso
Uma tarde, um final de semana

Um copo de vinho, um vazio
Uma música, uma cama

Uma praia, um desejo
Um tolo, uma trama

Uma cega, uma víbora
Uma vida, uma chama

Um erro, um acerto
Uma vontade, um que ama

E mesmo assim passou
Eu te avisei, não reclama 

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

Lembrança



Hoje eu acordei esquecendo você
Assim como prometi

Cada vez mais distante do começo
No início, resisti

Um dia a menos lhe agregando culpa
Me lembrei dos seus cabelos

Agora não! Lembrei-me de te esquecer
Passei o dia pensando em esquecê-los

Olhei tua foto na intenção de me lembrar
Que preciso, devo esquecer o seu beijo

E comecei me vangloriando da sorte
Me encontrei cheio de sonhos, ensejo

Um tanto mundano, talvez só desejo
Não entendi o motivo do desapego

E continuo vivendo assim
Contando dias sem perceber

Me desentendendo comigo
Não sabendo se devo esquecer ou não de te esquecer

 

Domingo, Dezembro 03, 2006

Poema de um tolo


Feito a luz que não se guarda

Secar gota de orvalho no mato



Como uma lembrança no mar de lágrimas

Meado em novelo de gato



Igual ao tolo que foge da sombra

Do mártir que foge da cruz



Feito o artista que perde o toque

O caçador que caça na luz



Como o céu que perde sua cor

A tinta que perde seu tom



Igual à goteira que nunca cessa

Eco na ausência do som



É como tentar esquecer você

Mas não tenho uma outra opção

 

Quarta-feira, Novembro 29, 2006

Números



Estava ali, na minha frente
E me traí, a contento
Discando o número que me leva para o fundo
Onde eu sei que encontro alento

E a sua voz como água ao sedento
A gagueira e a vergonha de dizer "olá"
Um assunto qualquer
Na verdade eu liguei para ouvir "alô" e desligar

Caneta em mãos
Desenhando formas sem sentido num pedaço de papel
Desdenhando as formas e os sentidos
De um desejo que no final tem gosto de fel

E quando eu ouvi teu "sim" a ampulheta foi virada
Alguns dias que serão como anos
Tudo isso ou quase nada
Quando dei ouvido aos meus sonhos tão insanos.



Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Tempestade



Perceba onde tudo se perdeu
Naquela pequena linha onde a terra encontra o céu
Se forma a tempestade

É o encontro de deuses antigos, ciumentos, violentos e vingativos
Cirro-cúmulo, estratos e nimbos

E naquela linha
O azul encontra o azul


Para Helen

Domingo, Novembro 26, 2006

Meias verdades



Para sangrar, meia ferida basta
Meia palavra, gesto e meio para magoar

Vida em meio à morte
Ausência de um meio para respirar

Buscando ar na superfície
Perdido em meio ao mar

E em meio ao seu turbulento coração
Perdeu-se muito, tornou-se vício

Siso perdido na discrepância
Meio desatino, surto de ignorância

E eu ingênuo buscando meias verdades
Resposta por meio de cartas, sofrendo pela distância

Acordado, meio abstênico
Descobri que pouco não se perde por ganância

Então te peço que não use o meio-termo
Pega tua chave, tranca a porta, leva a saudade e a lembrança.

Sábado, Novembro 25, 2006

Eqüidistância



Eu tomei o que era meu
Sequer vi seu rosto
Sequer um adeus
Vicissitude que gerou o caos

Sequer derramei a lágrima
Engoli o choro
Grito preso na garganta
Patricídio doloso

Devolvi o que era teu
Cansei das promessas vazias
Dos salmos, Davis e Golias
Da cruz e da crueldade da vida

Desapego da culpa
Inerência ao castigo
Se tens vergonha do mundo
Toma-o e leva contigo




Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Dia de março



Domingo de março
Quando deixei tudo ir embora
E comecei a me sentir vazio
O pensamento que nunca cessa
E nunca se deixa revelar
Entao qualquer dia parece igual àquele qualquer
Não sinto mais o calor do sol na minha pele
A presença do Zephyrus
Enterrado vivo
Sufocado numa cela de madeira
Frio da terra molhada
Umidade que se infiltra no claustro
Eu não sei sair daqui
Eu quero sair de mim. 

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Maré



Eu perdi a noção do tempo, do espaço
Perdi a noção de mim
Caminhando sobre as águas eu me vi ali
Era hora de deixar o mar ir embora
Avistei aquela árvore
O encontro dos espíritos
Cravada na areia
Revoltosa
Raízes no incerto
Futuro lodoso
Vontade secreta de ser levada com o maré
Preferir a morte à não se saber o que esperar
Do dia que ainda não chegou.



Terça-feira, Novembro 21, 2006

Em pedaços



Frágil como o vidro
Que se quebra sem aviso
Cortante como a lâmina que se emana
Revelando a alma insana

Pouco posso ver
Nada parece claro, tudo se distorce
Quando algo se parte
Ou se deixa quebrar, ficando em desfoque

E tento colar os fragmentos
Juntar as peças confusas do desafio
E só consigo me machucar mais
Nos pedaços que encontro no caminho


Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Dessentido



Me lancei num caminho sem sentido
Me guiando pelas luzes toda noite e fazendo notas mentais sobre a vida
Liberdade tão há pouco recebida
Vi um sentido oposto que gostaria

Tomei a via sem pensar no efeito
Era mais do que poderia suportar
Não peço ajuda, me deixo calar
Não cheguei a sofrer de paixão
E nunca pude negar os lábios do dessabor
Guiei tudo para uma sandice
Era muito mais que falei, metade que eu disse
Ainda sem sentido
De sentidos da dor
Sem sentido, se for
Dessentido é o amor

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Luz amarela



Me sinto estranho
Do tipo de estranheza que poucas vezes senti
Estranhamente eu me deixei e perdi

Da tristeza que vem o sorriso
Do sangue que forma o coágulo
Do medo que excita o afago

E deixei o passado para esmaecer
Junto com as tralhas e o entulho
Me fiz de surdo, não quero ouvir seu barulho

Faça como eu faço
Atravesso o sinal antes do vermelho
Deixo quem me deixa no reflexo do espelho

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Espelho do céu



Um caminho e uma lagoa deixada de lado.
O silêncio que tortura.
Sentado à beira do lago alimentando os peixes.
Era um dia de maio, dia de Santa Alexandra, centésimo trigésimo oitavo dia do ano.
Foi uma tarde de céu azul, brisa quente, nuvens tímidas e tempo assíncrono.
Eu via suas águas turvas servindo de espelho para o céu.
Escutava o ruído permanente do seu encontro com as pedras.
Foi então que senti a primeira brisa fria e a sombra da montanha se formar. No céu um dégradé pastel.
Na mão uma bota com água.
No coração a sensação que aquele dia nunca seria esquecido, mesmo se eu pudesse escolher esquecê-lo. 

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Quadrante



Esta é visão que tenho do meu quintal. É só o que vejo. Faz vinte cinco anos que olho para o mesmo ângulo, mesmo pedaço do céu. Todo dia. Não é à toa que estou enjoado deste lugar, da minha vida e do mundo que vivo. Um mundo enorme lá fora e eu assistindo o baile das nuvens aqui no meu celeiro de idéias e sonhos. Elas tentam, da maneira que podem, mudar para não serem repetitivas. Ao contrário da maioria das pessoas que querem ser sempre as mesmas. Mesmos erros, mesmo vícios. Como eu.
Nem quero filosofar hoje porque não é hora. Nem tenho o que filosofar. Na verdade eu não tenho nada para dizer, por isso eu tiro fotos.